Guias de turismo impulsionam a Trilha Caminhos da Ibiapaba e fortalecem o turismo sustentável na região
Rota de longo curso conecta os parques nacionais de Ubajara (CE) e de Sete Cidades (PI) e ganha força com atuação de profissionais locais, que conectam visitantes à natureza, cultura e comunidades
Maicon Manso do Nascimento
O turismo de natureza segue em expansão no Brasil, impulsionando experiências cada vez mais autênticas, imersivas e conectadas aos territórios locais. Nesse cenário, os guias de turismo têm papel fundamental: mais do que conduzir visitantes, são eles que traduzem o ambiente, compartilham saberes e garantem que a experiência aconteça de forma segura, responsável e enriquecedora.
Em muitas regiões, a atividade sustenta famílias inteiras, também contribuindo diretamente para a conservação dos ecossistemas e para a valorização das comunidades onde atuam.
“Os guias de turismo são peças-chave para uma visita memorável, e ver os benefícios do turismo de natureza chegando na ponta, impactando positivamente a vida dessas pessoas, é o que dá sentido a todo esse nosso esforço por mais pessoas, mais conservação, mais infraestrutura e mais inclusão nos Parques do Brasil. Quando o turismo é bem conduzido, ele gera, além de saúde e bem-estar às pessoas e à conservação da nossa biodiversidade, oportunidades de emprego e renda para os moradores locais”, afirma Mariana Haddad, gerente de políticas públicas do Instituto Semeia — organização que atua para incentivar a visitação nos parques do Brasil, fortalecer a gestão dessas unidades e apoiar o desenvolvimento socioeconômico das regiões onde estão inseridas.
Na Trilha Caminhos da Ibiapaba, guias transformam vivência em renda e conservação
Com cerca de 190 quilômetros de extensão, a Trilha Caminhos da Ibiapaba, que foi inaugurada em fevereiro deste ano, atravessa a região da Ibiapaba conectando diferentes paisagens e ecossistemas. Reconhecida pela Rede Brasileira de Trilhas, é a primeira de longo curso do Nordeste e do bioma Caatinga, e liga dois importantes parques nacionais — o Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí, e o Parque Nacional de Ubajara, no Ceará —, atravessando a Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra da Ibiapaba.
O visitante percorre trechos que passam por áreas de Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado, além de mirantes, cachoeiras e sítios arqueológicos, vivenciando também experiências culturais e gastronômicas nas comunidades locais. Essa combinação permite uma imersão que vai além da paisagem, integrando natureza, cultura e modos de vida do interior do Ceará e do Piauí. É algo que vai muito além do visual.
“Ao conectar biodiversidade, cultura e desenvolvimento local, a Trilha Caminhos da Ibiapaba exemplifica como o turismo de natureza pode ser um vetor de transformação socioeconômica quando aliado à conservação ambiental e ao protagonismo das comunidades”, ressalta Mariana, que esteve na região em fevereiro deste ano.
Inspirada em caminhos históricos da região, a Ibiapaba se consolida como um modelo de turismo de base comunitária, promovendo experiências autênticas e incentivando a valorização do território. Ao mesmo tempo, reforça o papel estratégico dos parques naturais brasileiros e evidencia como o trabalho dos guias pode transformar territórios, conectar pessoas e gerar impacto positivo.
Mais do que um percurso, a rota é um convite para vivenciar o território de forma consciente — e reconhecer que, por trás de cada paisagem, há histórias, pessoas e saberes que dão sentido à experiência.
Guias locais: histórias de quem fortalece o turismo de natureza na trilha
Nascido e criado em Ubajara (CE), o guia Maicon Manso do Nascimento, de 23 anos, encontrou no turismo de natureza não apenas uma profissão, mas um caminho de realização pessoal. “Hoje me vejo com um sonho realizado: atuar com pessoas e com a natureza”, afirma.
A relação com o meio ambiente vem desde a infância, vivida no interior, e se fortaleceu durante a formação técnica e a experiência dentro do Parque Nacional de Ubajara. Atualmente, o turismo é sua principal fonte de renda — atividade que também contribui para o sustento da família. “Por meio da minha profissão, consigo investir na minha vida pessoal e profissional e melhorar a qualidade do meu serviço. E sigo buscando capacitação para oferecer experiências cada vez melhores aos visitantes”, conta.
Além da condução, Maicon destaca o papel educativo do seu trabalho. “Utilizo o turismo como forma de conscientizar os visitantes e a comunidade local sobre o cuidado com a natureza — desde o descarte correto do lixo até o respeito aos animais e à vegetação”, explica.
Para ele, a trilha representa o potencial da região. “A trilha Caminhos da Ibiapaba veio como a vitrine principal daquilo que nós, guias, já vivenciamos e apresentamos. É um convite para a pessoa se conectar com a natureza e entender o significado de cada lugar, o cuidado com o ambiente e o valor da cultura local.”
Também atuando na região, o condutor José Olímpio Fontes Sampaio, de 31 anos, compartilha uma trajetória marcada pela vivência comunitária e pela conexão com a natureza desde cedo. Há oito anos no turismo, ele vê na atividade uma missão que vai além da geração de renda.
“A gente trabalha para conectar as pessoas com a natureza, promover um resgate de valores e proporcionar experiências de superação e aprendizado”, afirma. Para ele, embora a remuneração seja importante, o impacto gerado na vida das pessoas é o principal motivador. “Os valores que a gente agrega na vida dos visitantes é o que realmente impulsiona o nosso trabalho.”
O impacto do turismo também se estende às comunidades. Segundo Olímpio, a presença dos visitantes estimula o desenvolvimento local e fortalece o sentimento de pertencimento e de valorização. “Quando a comunidade se apropria do turismo, ela passa a cuidar mais do território — entende que a natureza é um patrimônio que precisa ser conservado para as próximas gerações”, explica.
Histórias de impacto são frequentes. Entre elas, experiências de visitantes que têm o primeiro contato com a natureza ou superam desafios pessoais durante o percurso — momentos que reforçam o papel transformador do turismo. “Ver a emoção das pessoas, principalmente aquelas que nunca tiveram essa vivência é algo que marca profundamente. São experiências que ficam para a vida toda”, diz Maicon.
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