Especialistas alertam: inovação sem equidade pode ampliar desigualdades na saúde brasileira
Debate reuniu representantes do setor privado, governo e academia para discutir como garantir que a inovação em saúde avance com equidade
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Inteligência artificial, análise de dados, telemedicina e medicina preditiva estão transformando rapidamente a forma como a saúde é planejada, gerida e oferecida à população. Ao mesmo tempo em que essas tecnologias ampliam as possibilidades de acesso, eficiência e personalização do cuidado, especialistas alertam para um desafio cada vez mais urgente: garantir que a inovação não amplifique desigualdades já existentes no sistema de saúde.
A discussão foi tema do painel “Inovação sem Equidade é Ruptura: o risco de uma saúde dividida entre os visíveis e os invisíveis”, realizado em São Paulo, durante a Feira Hospitalar, a maior feira do setor.. O debate reuniu representantes do setor privado, do Ministério da Saúde, do Núcleo de Inovação Tecnológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, da Universidade de São Paulo (USP), do ecossistema de inovação em saúde e empresas da área de saúde.
O encontro trouxe à tona uma reflexão central para o futuro do setor: quem está sendo contemplado pelos avanços tecnológicos e pelos dados que alimentam as novas soluções de saúde?
Segundo Bruno Borghi, presidente da Associação Brasileira de Startups de Saúde (ABSS), a transformação digital representa uma oportunidade histórica para ampliar o acesso ao cuidado, mas exige uma atenção especial à inclusão.
“Estamos vivendo um dos momentos mais relevantes da história da saúde. Nunca tivemos tantas ferramentas capazes de antecipar diagnósticos, ampliar acesso e tornar o cuidado mais eficiente. Mas a inovação só cumprirá plenamente seu papel se for construída para incluir toda a população”, afirma.
A preocupação dos especialistas está relacionada ao conceito de invisibilidade digital. Em um ambiente cada vez mais orientado por dados, pessoas sem acesso adequado à conectividade, sem prontuários estruturados ou sem histórico digital consistente podem acabar ficando fora dos sistemas que orientam decisões clínicas, análises populacionais e desenvolvimento de novas tecnologias.
“Quando os dados passam a ser a base da inovação, surge uma nova pergunta: quem está ficando de fora? Quem não gera dados ou não está integrado aos sistemas corre o risco de se tornar invisível para as soluções que estão sendo criadas”, explica Borghi.
O debate acontece em um momento de avanço da digitalização da saúde brasileira. Dados recentes do Ministério da Saúde mostram que 94,6% das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) já possuem acesso à internet e 87% utilizam prontuário eletrônico. O levantamento, realizado em mais de 44 mil UBSs em todo o país, também apontou que 77,8% das unidades possuem computadores conectados à internet em todos os consultórios. Apesar dos avanços, especialistas apontam que ainda existem desafios relacionados à interoperabilidade dos sistemas, à qualidade dos dados e à inclusão digital de diferentes regiões e populações.
Nesse cenário, os participantes destacaram a importância de ampliar investimentos em infraestrutura digital, conectividade, integração de sistemas e capacitação de profissionais e pacientes para o uso das novas tecnologias.
Outro ponto de destaque foi o papel estratégico do Sistema Único de Saúde (SUS) como agente de democratização da inovação. Com presença em todos os municípios brasileiros e atendimento a milhões de pessoas diariamente, o SUS possui potencial para liderar a adoção de soluções capazes de gerar impacto em larga escala e reduzir desigualdades históricas no acesso à saúde.
“O Brasil possui uma oportunidade única. Poucos países contam com um sistema público com a abrangência do SUS. Se conseguirmos conectar inovação, tecnologia e políticas públicas, podemos construir um modelo de saúde digital que seja referência não apenas em eficiência, mas também em inclusão”, destaca Borghi.
O painel também abordou o papel das startups e healthtechs na construção desse futuro. Para a ABSS, as empresas de inovação em saúde têm a oportunidade de desenvolver soluções que considerem desde sua origem diferentes realidades sociais, econômicas e regionais, ampliando o alcance do cuidado e reduzindo barreiras de acesso.
“Precisamos evoluir na discussão sobre inovação. Não basta perguntar o quão avançada é uma tecnologia. Precisamos perguntar para quem ela foi desenvolvida e quem será beneficiado por ela. O verdadeiro sucesso da transformação digital será medido pela capacidade de incluir pessoas e não apenas pela sofisticação das ferramentas”, conclui Borghi.
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