Zalfa: a geração que influencia antes mesmo de ter renda

Por Julia Xavier, especialista em comportamento de consumo, novas gerações e estratégia de marca.

Por PITCH COMUNICAçãO
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Um novo grupo começa a ganhar relevância: os chamados "Zalfa" ou "Zalpha", termo já observado em análises internacionais de varejo para descrever jovens na transição entre a Geração Z e a Geração Alpha. Ainda pouco difundido no Brasil, o conceito aponta para uma geração que, mesmo sem renda própria, já exerce influência direta nas decisões de consumo familiar. No entanto, antes de entender o que esse grupo representa, é preciso compreender o terreno que ele herda. 

Para essa geração e para a Geração Z que a precede, a escolha de uma marca funciona quase como um voto. Essa não é uma metáfora forçada: é um posicionamento público, deliberado, carregado de significado simbólico e com exigência explícita de coerência. Assim como um voto expressa valores e cobra responsabilidade de quem o recebe, a decisão de consumo passa a ser um ato político cotidiano: apoia-se o que se acredita, e abandona-se o que decepciona. O pesquisador norte-americano Russell Belk, referência global em teoria do consumo, descreve o consumo como extensão da identidade individual; já o sociólogo francês Pierre Bourdieu, um dos pensadores mais influentes do século XX, vai além e mostra como reputação e propósito operam como capital social. O que a Geração Z fez foi tornar esse mecanismo explícito e cobrar por ele. 

Os números confirmam. Segundo o relatório especial "A Nova Dinâmica de Influência", desenvolvido pela Edelman, 62% dos brasileiros afirmam que a GenZ influencia suas decisões de consumo, e 59% deixam de comprar quando perdem a confiança em uma empresa. A pesquisa do InstitutoZ com a YOUPIX vai na mesma direção: quatro em cada cinco jovens já abandonaram marcas por questões reputacionais. Ou seja, o produto não sustenta mais a decisão sozinho, o que ganha nessa equação é a coerência entre discurso e prática. 

Esse padrão de exigência tem raízes no desenvolvimento humano. O psicólogo germano-americano Erik Erikson, pioneiro no estudo da formação da identidade ao longo da vida, descreveu a adolescência como a fase central de construção de quem se é. O que ele não podia prever é que essa fase seria atravessada por uma tecnologia onipresente e por uma consciência social amadurecida precocemente. Os jovens de hoje chegam às lojas, físicas ou digitais, com opinião formada e capacidade real de influenciar decisões coletivas. Para eles, o consumo não é apenas troca comercial: é ferramenta de experimentação identitária, um ensaio contínuo de quem estão se tornando. Este é o ponto central desta análise. 

A mesma geração que é a mais digital da história é também a que mais busca o presencial e o desconectar: 73% preferem comprar em lojas físicas e 81% gostariam de reduzir o tempo de tela, segundo levantamentos da Vogue Business e da Quad/Harris Poll. Esse movimento não é contraditório e sim compensatório. Há uma saturação de estímulos digitais que empurra o offline para o lugar de experiência de maior valor, aquele em que a humanidade volta a ter protagonismo. O comportamento dialoga com o que o sociólogo urbano norte-americano Ray Oldenburg chamou de "terceiros espaços": ambientes de convivência e construção de vínculos que não são nem casa nem trabalho, mas onde relações reais se formam. Essa busca pelo presencial é, portanto, um desdobramento direto da mesma lógica identitária que orienta o consumo: se a marca precisa ser coerente, o espaço de encontro também precisa ser real. 

Na prática, essa mudança já se traduz em novos formatos de consumo e convivência. No Brasil, iniciativas como o Tinta La Vida, voltada a experiências manuais e criativas, e encontros coletivos como o Longão ilustram a busca por interações mais concretas e compartilhadas. 

O que se sabe é que a Geração Z já impacta significativamente o comportamento de compra de outras faixas etárias. Com a entrada dos Zalfa no mercado, essa dinâmica tende a se intensificar: são jovens que cresceram com acesso irrestrito à informação, navegam entre o digital e o físico com naturalidade e chegam ao consumo com repertório e posicionamento já consolidados, mesmo antes de ter renda própria.   
Para as marcas, a mensagem é clara: não se trata de ser perfeita, mas de ser coerente e transparente. Esses atributos já não são diferenciais, tornaram-se requisitos mínimos para existir no mercado atual. 

 

Sobre Julia Xavier  

Júlia Xavier é especialista em comportamento de consumo, novas gerações e estratégia de marca, com atuação entre Brasil e Europa. Formada em Publicidade pela ESPM, possui mestrado em Fashion Promotion, Communication and Digital Media pelo Instituto Marangoni, em Paris. Atuou como Global Media Coordinator na Hugo Boss, integrando equipes internacionais e trabalhando com mídia e estratégias globais para diferentes mercados.  

É presença recorrente na NRF – Retail’s Big Show, maior evento global de varejo, onde acompanha e analisa tendências de consumo, inovação e transformação do mercado, com foco especial na geração Z. É também apresentadora do podcast We Are Too Fashion, no qual discute moda, consumo e comportamento sob uma perspectiva estratégica e contemporânea.  

De volta ao Brasil, atua como palestrante, consultora e produtora de conteúdo, apoiando empresas na tradução de movimentos culturais e tendências globais em decisões aplicáveis ao negócio. Já foi colunista do Glamurama, participante de eventos como SXSW e Web Summnit, e é fonte para debates sobre consumo, moda, luxo, inovação e varejo.  

  
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