Detalhes que ligam o Enem à Copa do Mundo

A escola ensina por matéria; o Enem cobra por habilidade; e em nenhuma parte da prova esse desencontro custa tão caro quanto na que decide quem será o campeão

Por FERREIRA ANTUNES
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Sérgio Gouveia* A Copa do Mundo acabou, mas as lições dela não. O comportamento dos jogadores argentinos na cerimônia de premiação (de costas para os espanhóis, entre o protesto e o agradecimento à torcida) gerou uma discussão que é legítima, mas esconde a lição mais útil do campeonato, sobretudo para os mais de cinco milhões de jovens brasileiros que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em novembro: a Argentina não perdeu por falta de base. Tem bons jogadores, foi bem treinada, venceu batalhas difíceis antes. Perdeu por falta de finalização. E prova, como final de Copa, também se decide assim. Vamos pensar na partida, na prova e na vida. É nos detalhes que as vitórias acontecem. Comecemos pelo que se fez e o que se deve fazer durante o jogo. Na final, os detalhes foram lances (ou a falta deles): a pouca iniciativa dos hermanos deixou os espanhóis mais à vontade; o erro evitável de Enzo Fernández, que gerou seu primeiro cartão amarelo, fez sua entrada mais forte em Cubarsí ser mais duramente punida. E a administração do jogo feita pelos espanhóis, que atacaram mais e acertaram tanto os passes difíceis como os fáceis, rendeu-lhes a taça. Tudo isso representa bem o que a TRI faz com enemzeiros: erros evitáveis fazem acertos difíceis serem menos valorizados, e a gestão do tempo na prova (sobretudo o hábito de driblar as questões trabalhosas, deixando-as por último) pode ser decisiva para evitar perder o jogo por causa das questões fáceis. Na prova, os detalhes são de natureza distinta dos do futebol, mas igualmente decisivos para o resultado. O ENEM não soma pontos como um placar comum: sua metodologia, a TRI, estima a proficiência do candidato pelo conjunto das respostas. Nenhum acerto é descartado; contudo, um padrão coerente, em que o estudante garante primeiro as questões fáceis e medianas para, só depois disso, enfrentar as difíceis, traz notas maiores do que as de quem apresenta um padrão errático com o mesmo número de acertos. Traduzindo para o gramado: pouco adianta a genialidade de alguns lances e passes de Messi se o time tem pouca estratégia para manter o controle da bola e se Giuliano Simeone, no último lance, erra por centímetros o chute que levaria a decisão aos pênaltis. Durante a prova, portanto, postura é método: garantir o simples com consistência e buscar condições propícias para acertar no extraordinário. Agora, o depois da partida, que é também o antes da próxima. A Argentina errou de novo, ao virar as costas. Depois de qualquer derrota, o gesto mais produtivo não é o protesto: é olhar para quem venceu e perguntar o que, exatamente, o campeão fez de decisivo. Vale tanto para seleções quanto para quem já fez o Enem e quer melhorar. Vamos aprender com os enemzeiros que foram os campeões do exame em anos anteriores: depois de analisar os resultados deles a partir dos microdados do Enem, constatei que é em Linguagens e em Redação que suas notas se destacam das dos que ficaram na fase de grupos, nas oitavas ou nas quartas; suas notas de Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza são muito parecidas com as de seus rivais. É ali, nas duas provas que cobram as habilidades de ler e escrever, que se marca o gol da prorrogação. Faz sentido. Essas habilidades são, ao mesmo tempo, o alicerce e o acabamento de qualquer formação. Alicerce porque tudo depende delas: quem tem dificuldade para entender o que lê e para expressar o que pensa só ganha jogo fácil. E acabamento porque são elas que distinguem os melhores entre os bons: os grandes campeões da vida são as pessoas com refinada capacidade de compreender textos complexos e de se expressar conforme cada situação exige. A Matriz de Referência do Enem dedica a essa área 30 habilidades, que vão da análise de estratégias persuasivas à leitura da arte e do próprio corpo como formas de comunicação. Para a tristeza do Brasil, no campo da educação (e não mais no do futebol), o treino de Linguagens, essa área decisiva, é justamente o que vejo, há duas décadas trabalhando em escolas tradicionais, ser feito da forma menos estratégica. A escola ensina por matéria; o Enem cobra por habilidade; e em nenhuma parte da prova esse desencontro custa tão caro quanto na que decide quem será o campeão. A Argentina perdeu com uma excelente base; faltou a finalização de campeã. Quem vai jogar a final de novembro ainda tem tempo de aprender com o choro dos hermanos: reforçar a base e caprichar nas finalizações. E isso se constrói em um campo essencial para todas as vitórias da vida — o das linguagens.
*Sérgio Gouveia é professor de Linguagens há mais de 20 anos, graduado pela USP e mestre pela Unesp. Sócio-fundador da escola Ágora e criador do curso HABES, construído sobre a classificação de questões oficiais do ENEM por habilidade e parâmetros da TRI, dedica-se ao ensino das competências avaliadas pelo exame nas provas de Linguagens e de Redação.  

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