Multi-instrumentista Nigga estreia como ator e leva música ao vivo para o clássico de Nelson Rodrigues
Em cartaz com O Beijo no Asfalto, o artista interpreta o provocador Sodré, assina a direção musical e executa a trilha em cena
PorMAR COMUNICAçãO•
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Diego Padilha
Quem for ao Teatro Glaucio Gill assistir à nova temporada de O Beijo no Asfalto vai se deparar com uma encenação que pulsa no ritmo da cena. O clássico de Nelson Rodrigues ganha uma atmosfera ainda mais tensa e envolvente graças à chegada do ator e multi-instrumentista Nigga. Além de estrear em seu primeiro papel de destaque como o personagem Sodré, o artista transformou a concepção do espetáculo ao sugerir a execução da trilha sonora ao vivo e assinar a direção musical ao lado de Felipe Storino e Laura de Castro.
Convidado para o projeto faltando apenas um mês para a estreia, Nigga entrou na equipe por indicação do gestor do teatro Rafael Raposo e do ator Danilo Canindé, recebendo o abraço imediato de todo o elenco, que conta com nomes como Eduardo Sterblitch (Arandir), Luísa Arraes (Selminha) e Edson Celulari. O espetáculo conta ainda com a participação de André Mattos e Ernani Moraes, sob a direção de Marco André Nunes.
Ao revelar seu talento com o contrabaixo, sintetizadores e saxofone, Nigga acendeu na direção a possibilidade de trocar bases gravadas por uma trilha viva, executada em tempo real. A ideia virou realidade. Em parceria com Laura de Castro e Felipe Storino, criaram uma sonoridade pesada e marcante. Em cena, o grave do contrabaixo e as texturas eletrônicas sustentam o clima de suspense em torno das acusações de homofobia e do linchamento moral sofridos pelo protagonista.
“Eu chego nesse projeto de uma forma muito doce, muito linda, com o contrabaixo. Ele é um instrumento bem denso, que é o que a peça pede, né? É um assunto bem pesado, a peça fala sobre homofobia, preconceitos.Esse instrumento causa esse sentimento de pesar o clima. Como o Filipe Storino tinha trazido inicialmente uma textura de sintetizador, foi perfeito porque eu toco bastante sintetizador, tenho esse trabalho também em outras peças”, revela.
Se na música Nigga domina o ambiente, na atuação ele encara um desafio inédito ao dar vida a Sodré. “Esse é o meu primeiro trabalho como ator. Já tinha feito algumas participações bem pontuais, mas eu era mais contratado como musicista para tocar e acabava entrando numa cena pequena. Agora foi ao contrário”, comenta.
Colega de trabalho de Arandir, Sodré é o típico homem sem filtro que incita a zombaria na repartição e pressiona o protagonista após os boatos sobre o beijo em um homem na rua. “Eu e o Sodré temos em comum essa parada de ficar zoando as pessoas, mas o que é totalmente diferente é que eu tenho noção dos limites, tem coisas que não são pra falar, tem coisas que são preconceitos, LGBTQIA+fobia e ele não tem esse filtro. Mas eu empresto pra ele um pouco do meu corpo, do Nigga, da minha movimentação, das olhadas, da risada”, revela.
Conheça o artista
A trajetória pessoal do artista carrega uma forte história de identidade. A alcunha Nigga surgiu ainda na adolescência quando participava do grupo de escoteiros. Na época, devido ao sucesso do hip-hop internacional e à sua semelhança com o artista de um videoclipe, o apelido pegou e o acompanhou ao longo dos anos. Consciente do peso histórico da palavra no contexto internacional, ele ressignificou o termo em seu cotidiano e trabalho, utilizando-o como um símbolo de afeto e pertencimento. “Começaram a me chamar de Nigga no escoteiro, quando eu tinha 13 anos, por causa da música “My Nigga”, que todo mundo gostava na época. É uma palavra pejorativa nos Estados Unidos, mas eu ressignifiquei ela pra mim porque todas as pessoas que me amam me chamam assim. É para os meus amigos.A cultura preta, fora do país, usa nigga entre os pretos, quando é preto falando com preto. Eles usam nigga pra te chamar de brother, te chamar de irmão. Obviamente eu permito que as pessoas entendam que Nigga é um lugar de carinho pra mim”, explica.
Ighor Albuquerque (Nigga) é contrabaixista (acústico e elétrico), saxofonista, cantor, beatmaker, compositor, diretor musical e ator. Iniciou sua vida musical aos 13 anos no projeto social ASMB (Ação Social Pela Música no Brasil) e concluiu sua primeira formação pela escola de música Villa Lobos. Chegou a fazer turnês internacionais pela Alemanha, Noruega e Suécia, possibilitadas pela Camerata Laranjeiras. Anos mais tarde concluiu a formação pela Academia Juvenil da Orquestra Petrobrás Sinfônica, onde criou o Duo Sweetjazz com o objetivo de popularizar os instrumentos clássicos juntando diversos gêneros musicais. Atualmente possui licenciatura em música pela UNIRIO.
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