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Raphael Ayub* Durante muito tempo, o enoturismo foi visto apenas como uma modalidade sofisticada de lazer, destinada aos apreciadores do vinho e aos visitantes da Serra Gaúcha. Essa percepção já não corresponde à realidade. Hoje, o vinho deixou de representar apenas um produto agrícola ou industrial para tornar-se um ativo econômico capaz de impulsionar investimentos, fortalecer pequenas empresas, gerar empregos, ampliar a arrecadação e projetar internacionalmente o Rio Grande do Sul.
O turismo contemporâneo não se organiza apenas em torno de paisagens. Os destinos mais competitivos do mundo são aqueles que conseguem transformar sua identidade em valor econômico. O enoturismo é justamente a demonstração de que tradição, cultura e produção podem caminhar juntas quando existe planejamento, organização territorial e uma estratégia pública consistente.
O Vale dos Vinhedos simboliza esse processo. O que começou há mais de um século, com famílias de imigrantes italianos cultivando videiras para consumo próprio, evoluiu para um dos mais bem estruturados polos de turismo do País. Não foi uma transformação espontânea. Ela decorreu da profissionalização da vitivinicultura, da cooperação entre produtores, da qualificação dos serviços turísticos e da construção de uma identidade reconhecida nacional e internacionalmente.
A força desse modelo está na integração entre agricultura, indústria e serviços. O visitante não compra apenas uma garrafa de vinho. Ele vivencia uma experiência completa que envolve hospedagem, gastronomia, cultura, arquitetura, comércio local, transporte e eventos. Cada etapa dessa jornada distribui renda por dezenas de pequenos negócios familiares, ampliando o impacto econômico muito além das vinícolas.
É justamente essa capacidade de irradiar desenvolvimento que diferencia o enoturismo de outros segmentos turísticos. Enquanto muitos destinos dependem exclusivamente de temporadas específicas ou de grandes eventos, a cadeia do vinho cria um fluxo econômico permanente, sustentado pela diversidade de experiências oferecidas ao longo do ano. A vindima movimenta visitantes interessados em acompanhar a colheita. O inverno atrai turistas em busca do clima serrano. Festivais tradicionais, como a Fenavinho, renovam o calendário e estimulam novas viagens. Essa distribuição da demanda reduz a sazonalidade e oferece maior previsibilidade aos empreendedores.
Outro diferencial decisivo está na proteção da origem. A Indicação de Procedência conquistada pelo Vale dos Vinhedos, pioneira no Brasil, representa muito mais do que um selo de qualidade. Ela transforma território em patrimônio econômico. Assim como ocorre nas principais regiões produtoras da Europa, a certificação agrega valor ao produto, protege sua identidade e fortalece sua competitividade em um mercado cada vez mais orientado pela autenticidade e pela rastreabilidade.
Essa lógica explica por que o enoturismo deve ser compreendido como uma política de desenvolvimento regional e não apenas como uma ação de promoção turística. Quando uma região consegue associar sua produção a uma identidade reconhecida, cria um ciclo virtuoso em que turismo, agricultura, gastronomia, comércio e cultura passam a crescer de forma integrada.
Os resultados recentes do turismo gaúcho demonstram esse potencial. Em 2025, o Rio Grande do Sul registrou crescimento de 11,4% na atividade turística, desempenho superior ao da média nacional. Diversos fatores contribuíram para esse avanço, mas poucos segmentos apresentam capacidade tão expressiva de distribuir renda quanto o enoturismo. Cada visitante que percorre a Serra Gaúcha movimenta hotéis, restaurantes, cafeterias, transportadoras, artesãos, guias, produtores rurais e comerciantes locais. É uma economia baseada na permanência do turista e na multiplicação do consumo dentro do próprio território.
Naturalmente, manter essa posição exige novos investimentos. A concorrência internacional entre destinos turísticos tornou-se intensa e não basta possuir bons produtos. É necessário qualificá-los, promovê-los e posicioná-los estrategicamente nos mercados emissores. Foi justamente com esse objetivo que estruturamos, em parceria com a Invest RS e o Sebrae RS, o Plano Tático Internacional, que identifica o enoturismo como um dos produtos prioritários para ampliar a presença do Rio Grande do Sul no mercado global.
Essa estratégia vai além da promoção institucional. Envolve qualificação profissional, fortalecimento da infraestrutura, apoio ao empreendedorismo, presença em feiras internacionais e aproximação com operadores especializados. Em um cenário em que turistas buscam experiências autênticas e personalizadas, o Rio Grande do Sul reúne atributos capazes de competir com regiões tradicionais do mundo.
Também é importante compreender que o sucesso do Vale dos Vinhedos não deve permanecer restrito à Serra Gaúcha. O modelo construído ali oferece referências para outras regiões do Estado que apresentam vocação vitivinícola. A expansão de novas rotas, respeitando as características de cada território, amplia oportunidades econômicas, diversifica a oferta turística e fortalece a regionalização, uma das diretrizes centrais da política estadual de turismo.
O enoturismo demonstra que desenvolvimento não nasce apenas de grandes obras ou de incentivos fiscais. Muitas vezes, ele surge quando um território reconhece sua própria vocação, protege sua identidade e transforma patrimônio cultural em ativo econômico. O vinho produzido no Rio Grande do Sul carrega história, técnica e tradição, mas também representa inovação, empreendedorismo e geração de riqueza.
Essa talvez seja a principal lição do Vale dos Vinhedos. O turismo deixa de ser apenas um instrumento de visitação para tornar-se uma política pública capaz de fortalecer cadeias produtivas inteiras. Quando planejamento, identidade territorial e investimento caminham juntos, o resultado ultrapassa o setor turístico. Constrói desenvolvimento sustentável, amplia oportunidades e posiciona o Rio Grande do Sul como referência nacional e internacional em um dos segmentos mais sofisticados da economia da experiência.
*Raphael Ayub é Secretário de Turismo do Rio Grande do Sul. Advogado, empresário, investidor e conselheiro de empresas e instituições financeiras. Em Capão da Canoa, esteve à frente da Secretaria Municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico e da Secretaria de Gestão, Inovação e Planejamento. Recentemente, no Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), foi assessor superior da Presidência e também da Diretoria de Operações. Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
CAIO FERREIRA PRATES
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